segunda-feira, abril 25, 2005


por Maurício Amaral

Das muitas razões pelas quais eu detesto o pagode talvez uma pudesse ter sido superada. Um grupo de pagode geralmente possui apenas um, no máximo dois cantores que se alternam. Apesar disto, o conjunto conta sempre com mais seis ou oito elementos ridículos que permanecem no fundo do palco fazendo coreografias que consistem, basicamente, em dar dois passos para um lado, uma meia-volta e dois passos para o outro. Costumam usar roupinhas iguais, às vezes fazem que tocam um pandeiro ou uma maraca, e mantêm sempre um sorriso típico de quem ganha dinheiro no mole.

Outro dia fiquei imaginando que este abuso poderia ser transformado em algo de útil para a sociedade. Pensei, pensei e resolvi procurar um amigo que é produtor de um grupo pagodeiro. Expliquei para ele que o pai de outro amigo meu estava desempregado e pedi para ele um lugar no conjunto, exatamente entre aqueles que não se esforçam muito, já que, afinal, o sujeito já tem sessenta e oito anos.

No começo ele não me levou a sério, mas caprichei na argumentação. Mostrei para ele que o velho não teria muita dificuldade em executar as coreografias e, nesta parte, ele até concordou comigo. Em seguida avancei de maneira mais arriscada. Disse que a inclusão de um velhinho poderia atrair uma fatia de público ainda pouco explorada: as velhinhas solteiras, viúvas... e até as casadas insatisfeitas. Aí a conversa começou a degringolar: meu amigo achou um absurdo pensar nas velhinhas babando por um pagodeiro, pensou em sua própria mãe, e até na avó. Ficou bravo comigo e quase era o fim de uma amizade, mas, percebendo o problema, mudei rapidamente de estratégia. Divaguei sobre o assunto, apelei para o gesto social... disse que ele poderia até ir ao governo pedir um incentivo, qualquer coisa como redução de impostos, afinal de contas seria uma iniciativa pioneira na área social, etc. Ele pareceu gostar desta parte, até pensou em voz alta que poderíamos inventar que o velho era abandonado, e eu completei que se a moda pegasse, o governo economizaria com o esvaziamento dos asilos e a novidade poderia interessar à mídia, programas tipo Fantástico, Faustão, Gugu, etc., e até as pessoas que não gostam de pagode, como eu, poderiam passar a se interessar por questões humanitárias. Foi quando estraguei tudo. Não sei por que, mas esta última frase fez com que ele duvidasse de mim. Não consegui mais convencê-lo de que não era uma gozação e, assim, um grande projeto social se perdeu. No final, o velho continua desempregado e eu odiando mais e mais o pagode.

7:20 PM

1 comentários:

at 11:24 AM rafael disse...

Infelizmente, nem todos tem a sabedoria de entender que a música é uma arte universal, de gêneros diferentes, um para cada gosto, e que não deixa de ser música. Criticar outros gêneros que não agradam seu gosto não é proibido, liberdade de expressão, mais quando se fala de música, você acaba ferindo tudo universo musical, e na verdade esse é um caso de falta de inteligência. Os seu olhos não conseguem ver os profissionais e a manifestação da arte no palco, talvez seja necessário que você reveja seus conceitos musicais ...

Ass: Rafael viola ... Professor de música