quarta-feira, junho 22, 2005



por Mauricio Amaral



“Tendo chegado rapidamente ao termo, percorreu uma longa carreira. Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade”.
Livro da Sabedoria 4, 13-14.


Às vezes, é assim que acontece: a onda imensa e devastadora vem em forma de fato banal, como um acidente de carro. Não obstante, o seu rastro é o mesmo da tsunami: desolação, dor e perplexidade. As vidas que ficam perdem parte preciosa da sua substância, algo que lhes modifica a órbita natural.

Luciano possuía qualidades que o tornavam uma pessoa singular. Não há ninguém mais que saiba de cabeça todas as placas de carro dos parentes, amigos e ainda muitas outras de meros conhecidos. Também não é comum encontrar quem saiba calcular os dígitos de controle dos números de CPF. Nem tampouco quem tenha um olfato tão desenvolvido, capaz de identificar, às cegas, quase todos os perfumes existentes em uma importadora qualquer. Não há notícia de pessoa que fosse tão amada, unanimemente. No dizer carinhoso de um amigo, que não cansava de repetir apertando-lhe as bochechas, era o nosso “brigadeiro”, presente em todas as festas.

Embora muito peculiares, entretanto, estas características não eram o fator mais importante na sua distinção de outras tantas pessoas especiais. Havia algo mais grandioso a envolvê-lo, um mistério que ainda hoje permanece selado. Sobre isto, a feliz definição partiu de outro amigo: “ele tinha tempo para todo mundo”.

Como fosse querido, popular e solicitado, possuía vários núcleos de amizade. Cada um com suas preferências e programas específicos: jogar bola, malhar, jantar, viajar, comer caranguejo, ir à praia, festas, carnaval. Como ponto de interseção, ele fazia o absurdo: estava em todos. Não dispensava encontro, nem frustrava ninguém. No máximo, precisava arrumar uma desculpa para eventual atraso, coisa que fazia com um sorriso capaz de destruir qualquer aborrecimento decorrente da sua demora, por maior que tivesse sido ela.

Essa centelha de ubiqüidade, Luciano partiu sem explicar nem dividir. Até porque, mesmo arrastado pela onda, certamente, fez questão de devolvê-la intacta Àquele de quem a recebeu: o Pai Eterno, cuja face ele já há de contemplar.

8:53 PM

1 comentários:

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